domingo, 30 de novembro de 2008

A mensagem

O telefone era ainda de modelo analógico, de rodinha furada ao sabor dos dígitos, de zero a nove. Um a um, esperando que a roda regressasse ao local inicial, marcou o número que se encontrava na parte de trás do cartão de contacto.

(tempo de espera)

“Bom dia, ou boa tarde, consoante a altura do dia em que esteja a telefonar. Bem, o melhor será mesmo saudar-vos por Olá. Olá! Acabou de ligar para Alberto Sequeira. Se hoje for sábado de manhã, é natural que esteja a ouvir esta mensagem, pois é dia de cumprir religiosamente o meu passeio matinal acompanhado do fiel Sputnik, com o jornal diário generalista debaixo do braço, pelo jardim municipal. A esta hora devo estar sentado no banco defronte do repuxo, a ler as notícias sobre o mundo e economia e a passar as gordas de desporto, ao mesmo tempo que a água do repuxo teima em cair ciclicamente. Mas eu estou a ligar à tarde, pensou você. A parte da tarde, passo-a na praça da cidade, depois de almoçar qualquer coisa no Café Central. Opto usualmente, a menos que esteja esgotada, pela caldeirada de peixe com vinho branco a acompanhar, que aconselho vivamente à prova. Asseguro que é incrível a conjugação dos sabores. Passar a tarde, mesmo um qualquer tempo que seja, na praça da cidade a observar as pessoas que passam é uma experiência inovadora, por mais vezes que se repita. De todas as vezes consigo ver algo novo nas pessoas que passam, deliciando-me com os fragmentos das conversas que ouço, como a daquela senhora que não parava de dizer ao seu companheiro que ele “apenas estava a apanhar os frutos que colheu” – só para nós aqui, acho que ela queria dizer que ele apenas estava a colher os frutos que semeou; as expressões idiomáticas estão assimiladas de tal forma que às vezes nos enganamos quando as proferimos, ou então não sabemos o que significam ao certo, mas achamos que ficava bem utilizá-las naquela altura. De outras vezes aposto comigo próprio em como acerto o lado pelo qual as pessoas contornam a estátua daquele escritor famoso. Constatei que as pessoas que compram revistas no quiosque raramente a contornam pela esquerda. Duvido que haja alguma relação entre isso, mas é um facto incontornável. Um exercício mais divertido é ver que pessoas tropeçam naquele degrau maior da escadaria que vai dar à Sé. Às pessoas da cidade raramente acontece, a menos que passem distraídas, mas quase todos os turistas acabam por o fazer, porque por certo não vem referenciado no guia turístico da cidade. Talvez devesse vir, já que a Sé vem, e como destino imperdível (apesar de nunca ter percebido muito bem o porquê). Mudando de assunto, se ligou para este número, o mais provável é estar necessitado de um advogado, função que desempenho desde há alguns anos. Pode também dar-se o caso de querer conhecer a mensagem do atendedor de chamadas da pessoa. Asseguro-lhe que há algumas muito engraçadas, tendo eu uma vez telefonado cerca de sete vezes até conseguir ouvir a de um número que escolhi ao acaso na lista telefónica – se me lembro bem, era dos apelidos Reis, e tinha, disto estou certo, uma mensagem normal que de certo modo me desapontou. Normalmente, gosto de defender juridicamente aquelas causas em que acredito, e sempre recusei casos cujas causas considero desprezíveis. Não é a posição mais profissional, mas é a que me deixa mais sereno. Li nas instruções do telefone que poderia gravar uma mensagem de atendimento até três minutos. Primeiro pensei para quê tanto tempo numa mensagem meramente informativa e orientadora, mas depois achei que conseguiria preencher a totalidade dos minutos, e que seria um exercício mais estimulante que as palavras cruzadas da última página do jornal. Para ser sincero, nunca cheguei a acabar umas por completo, passo o pleonasmo. Deixei a porta de entrada aberta de propósito para o Sputnik poder entrar, mas ele ainda não regressou. A janela, reparei agora, esqueci-me dela aberta, pois não tenho nenhum pássaro de estimação – na verdade nunca achei piada a pássaros engaiolados – estilo pombo-correio, e está a deixar entrar aquele frio de Outono que me incomoda. Vou só fechá-la, e… a água da chaleira começou a ferver, e lá se vai o café que tinha pensado preparar para tomar enquanto via as notícias na televisão. O melhor mesmo será deixar a sua mensagem depois do sinal sonoro, ou então ligar noutra altura, se ainda precisar dos meus serviços. Um bem-haja, Alberto."

Bip.

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