Por imediações destes dias é o 45º aniversário de Alberto - o seu paradeiro incógnito não parece motivo suficientemente forte para transpor o verbo para o condicional.
Ter nascido a 29 de Fevereiro obrigava as pessoas, aquelas que o faziam, durante quatro consecutivos anos, a parabentear Alberto ontem, dia 28 de Fevereiro, ou hoje, 1 de Março, ficando a escolha ao critério de cada um. No entanto, nem num o argumento de que felicitar antes do dia dá azar, nem no outro, o lamento de se terem esquecido fariam muito sentido. Para mais, Alberto não era de todo supersticioso, o único ritual que cumpria obstinadamente era o de entrar sempre, sempre, com o pé direito em qualquer divisão em que entrasse pela primeira vez, ou onde, de certo modo, algo de importante estivesse prestes a acontecer - isto apesar de preferir o lado esquerdo das coisas; depois, também não era costume de Alberto felicitar aniversariantes com muita frequência, pois raramente criava amizades com as pessoas ao ponto de lhes poder dizer "Feliz Aniversário!", sem se sentir algo incomodado e constrangido.
Assim, e como qualquer das datas parece perfeitamente oportuna, "Feliz Aniversário!"
Três dias se passaram desde a passagem dos dois homens pelo Salão de Chá.
Eram por volta das quinze horas quando fizeram soar a campainha do 3º direito, onde morava a antiga senhoria de Alberto. O prédio encontrava-se do lado oposto ao Salão de Chá, reparavam-no agora, que já conheciam o outro lado da rua. Então é aqui que morou Alberto?, perguntou em jeito retórico o senhor mais alto, enquanto se aproximava da porta e examinava com o olhar a fachada. Até então, este era um edifício em tudo igual a todos os outros, e poderia ser o edifício onde teria morado qualquer pessoa. Era assim que lhe pareciam os prédios e casas de quem ignorava quem os habitava. Agora, era o edifício onde morou Alberto. Sim?, quem é?, ouviram pelo intercomunicador. Boa tarde. Ando à procura de casa para alugar e vi no jornal que dispunha de um apartamento, gostaria de poder vê-lo, se possível, obrigado. Sim, tenho um apartamento livre de momento, suba que lho mostrarei, respondeu a senhora. Pela voz deveria andar pelos 50 anos, talvez mesmo mais, e morava sozinha desde algum tempo, poderia afirmá-lo. Um ruído arranhado e metálico era o sinal de que poderiam entrar e subir. O hall de entrada era estreito e pouco luminoso, e o elevador central em ferro confirmava a idade avançada do edifício. Um receio inocente e anormal fê-los evitar o ascensor, tendo subido pelas escadas em caracol até ao terceiro piso. As tábuas da escada e, em seguida do corredor, a estrugir à medida que os seus pesos exerciam força sobre elas anunciavam à senhoria a aproximação dos dois possíveis inquilinos, pensava ela. A senhora encaminhou-os ao terceiro esquerdo, do outro lado do corredor, à medida que lhes ia explicando que, inesperadamente, o antigo inquilino do apartamento terá sumido, foi mesmo este o termo utilizado, e como já não aparecia nem dava notícias há alguns meses, ela terá resolvido voltar a tentar alugar o apartamento. Como podem ver, o apartamento está em perfeito estado, não cheguei sequer a mexer-lhe desde o desaparecimento do anterior arrendatário, o senhor Alberto, disse a senhora assim que abriu a porta. Assim nos parece, respondeu o senhor mais baixo.
O tapete da entrada tinha forma de meia-lua com bem-vindo escrito, e encontrava-se meticulosamente enquadrado, com a base paralela à entrada da porta e com o ponto central, que se achava traçando um raio perpendicular à base, do centro ao limite da circunferência, tangente à linha que separava duas das tábuas do assoalhado. Estão à vontade, ouviu-se a senhora dizer. A avaliar pelas informações da senhora, que não teria mexido em nada, o apartamento tinha um aspecto invulgarmente anónimo. Tudo o que preenchia aquele espaço, como móveis, jarros, quadros, estava disposto em figuras geométricas, parecendo haver um gosto especial pelos ângulos rectos, pois traçadas várias linhas imaginárias a unir os vários artifícios, estas formavam sempre este tipo de ângulos. Aparentemente, nenhuma peça estaria desalinhada. Tirando esta arrumação inusitada, nada enunciava aqui a presença de alguém. Era como um quarto de hotel, de ninguém e para todos, em que assim que se deixa vêm apagar a nossa presença de lá. Nenhum objecto, ou nenhum objecto pessoal, manifestava a presença de Alberto. Uma gaveta mal fechada do armário, que produzia ali o mesmo efeito que uma nota mal tocada numa composição musical, despertou o interesse do senhor mais alto. Este aproximou-se e abriu-a, onde encontrou um pequeno caderno género moleskine que prontamente guardou dentro do bolso da gabardina, sem que tanto o seu colega como a senhoria notassem. Agora não era a altura apropriada para examinar o caderno, pensou.
Na parede da porta, via agora enquanto se encaminhavam para a saída, descansava um quadro com a representação de um girassol. Tem aqui um quadro muito interessante, disse o senhor mais alto à senhoria. Sabia que num girassol, o número de espirais opostas, que formam as inflorescências na flor, são sucessores na sequência de Fibonacci? Não, mas sabia que tinham uma disposição singular, que eu aprecio, respondeu-lhe a senhora. Se calhar foi por isso que Van Gogh decidiu desenhar um quadro de girassóis, já pensou? Isso nunca o saberemos, sorriu-lhe de volta a senhora. Pois bem, entraremos em contacto consigo mais tarde, caso decidamos por nos acomodar aqui, mentiu-lhe o senhor mais baixo, pois não pretendiam.
Durante a viagem de carro ouvia-se apenas o barulho enferrujado e cíclico das escovas a limparem as gotas de chuva que fugiam apressadamente para as extremidades do pára-brisas. À chegada ao café Rota do Oriente, a chuva caía ainda de forma intensa. No tempo que perderiam a abrir o guarda chuva, molhar-se-iam mais do que se optassem por atravessar o passeio, a correr até à porta. O ambiente morno e de pouca luz, parecia bucólico e indolente, característico de uma casa de chás decorada a tapeçarias da Índia, em que se viam e cheiravam todos aqueles vapores aromatizados a especiarias orientais. Os dois entraram no salão, perscrutando o espaço com o olhar como se procurassem alguém. A empregada que veio à porta para os receber perguntou se desejavam tomar alguma coisa, indicando-lhes que poderiam ocupar a mesa do canto, ao fundo, próxima da janela. O senhor mais alto tirou o chapéu e sacudiu-o, antes de o pousar no bengaleiro. A água, retida pela fina malha de tecido na superfície do chapéu de coco, desprendia-se agora no ponto em que o movimento do chapéu era invertido. Apesar do salão ser frequentado por muita gente, a presença dos dois desconhecidos adquirira um contorno quase sinistro, a julgar pelos olhares dos clientes que já se encontravam na casa. A empregada aproximou-se da mesa que eles tinham ocupado e, antes que começasse a formular a questão, foi interrompida por um ainda não decidimos, obrigado, ao que respondeu como desejarem, afastando-se. Ao ler o menu, poderia afirmar que tinha sido escrito com o tipo de letra Georgia, e pensava agora se aquele tipo de letra se adequava realmente a uma casa de chás. Este menu ficaria mais atractivo se tivesse sido escrito em Iskoola Pota, não achas? Mais atractivo não digo, mas por certo estaria mais em sintonia com o ambiente, respondeu o senhor mais alto.Este optou por beber um comum chá de maçã, sendo que o seu colega se decidiu por um da categoria Oolong, de sabor a flor de baunilha, por achar esse um nome interessante para uma categoria de chás. Até então desconhecia que existiam categorias de chás, nunca tendo realmente pensado muito sobre isso. Os chás vinham servidos numa bandeja bastante trabalhada, assim como os copos, onde se poderia distinguir uma fina linha dourada no bordo. Assim que verteu um pouco do seu chá Oolong para um dos copos, um aroma bastante suave e doce inundou-lhe o olfacto, ao que ele respondeu inadvertidamente com uma inspiração mais prolongada e profunda, de olhos fechados. O vapor que saía dos copos continuava a subir e misturara-se um com o outro numa forma condensada no vidro da janela. Maçã e flor de baunilha Oolong, esta será seguramente a janela mais perfumada que já vi, pensou. Enquanto se detinha nestes pensamentos, algo que lhe pareceu familiar do outro lado da janela trouxe-o de volta à casa de chá e ao propósito da sua visita. Aquelas cortinas não te parecem familiares, perguntou ao seu colega que bebia o chá de maçã com cara de desengano. Não, por acaso não as estou a reconhecer de lado nenhum, respondeu depois de virar a cara em direcção ao exterior. Peço desculpa, disse dirigindo-se à empregada, mas corrija-me se estiver enganado, aquela janela do terceiro andar é da casa do senhor Alberto Sequeira, não é? A empregada demorou-se nos seus pensamentos, como que vasculhando o seu arquivo desordenado de memórias, sim, quase de certeza que é, creio tê-lo visto uma vez naquela janela, agora que fala disso. Ambos acabaram delongadamente e em silêncio as suas bebidas antes de deixarem o salão. Não devia ter pedido chá de maçã, disse à saída o senhor mais alto, sem se dirigir a alguém em especial.
A luz entra em tons amarelados de Outono pela fresta da porta e eu deixo que ela se sente a meu lado. Risco um fósforo com que acendo o cigarro e inspiro avidamente o fumo, que me enche os pulmões. É estranho como o fumo não existe sozinho e resulta da transformação de algo pelo fogo, penso. É como se fosse a condição incontornável para a mudança, o preço a pagar para se ser das cinzas. Continuo a inspirar e bato o cigarro no limiar do cinzeiro, fazendo cair as cinzas como se fossem as roupas que trago vestidas. Deixo à mostra as que trazia por baixo, que são iguais, pois só tenho esta camisa ao xadrez desbotada. O guarda-roupa dos meus dias é fogo-fátuo e dele não se vê verdadeiramente sair fumo.
O cigarro extingue-se e, com ele todos estes pensamentos. Dobro o guardanapo e guardo-o dentro do maço, onde só resta um último cigarro.
Além do inquietante manuscrito rasgado descoberto em sua casa, e deste encontrado dentro do maço, muito pouco se sabia mais acerca de Alberto. Junto com este segundo manuscrito encontrava-se também uma pequena caixa de fósforos, daquelas que se têm de partir os fósforos para se poder riscar, onde se lia “Casa de Chá Rota da Seda, Calçada do oriente, nº17” no verso; na parte da frente, uma personagem de turbante azul montando um elefante de cor branco. Poderia deduzir-se, pelo traço incerto e estouvado da sua caligrafia, que algo o perturbava por alturas do seu desaparecimento. Uma análise mais profunda do seu estado poderia ter sido feita se caso se tivesse entregado os originais dos textos a um qualquer entendido em caligrafias, mas as mensagens, por si só, já levantavam reticências bastantes. Estranhamente, a casa de Alberto terá sido encontrada em perfeito estado de arrumação e limpeza, com excepção do já referido maço. A janela encontrava-se agora aberta de par em par, com as cortinas a dançarem periodicamente ao sabor do vento, deixando entrar a luz que sobrevinha, em forma de quadrado cortado pela sombra dos cortinados, na outra extremidade da divisão, onde se podia ver um roupeiro com alguns cabides vazios. Um olhar mais atento ao guarda-fatos descobria, no canto mais brindado pela sombra, uma camisa ao xadrez solta no chão com indícios de ter sido queimada.
Alberto Sequeira terá nascido a 29 de Fevereiro de 1964, numa pacata vila localizada no centro do país. O facto de ter nascido no dia 29 de Fevereiro, por si só, fazia dele uma pessoa especial, ou pelo menos invulgar, que é um modo mais modesto de ser especial. Devido à profissão do pai, cedo se viu obrigado a mudar para uma cidade maior, onde passou toda a sua adolescência e início da idade adulta. Acabado o liceu, Alberto prosseguiu os seus estudos na Universidade, onde estudou direito, curso que acabou com excepção apesar de nunca se ter demonstrado verdadeiramente interessado. Lá, tracejou a linha contínua de giz branca algumas amizades, principalmente com pessoas de outras áreas de interesse que não a jurisprudência. Não terá sido de todo propositado, mas tornara-se sem dúvida algo de proveitoso, principalmente em tardes de conversas passados na esplanada do Café da Quebrada, sempre acompanhados da tranquilidade do rio, à esquerda. O Sr. Silva, proprietário do café, já o conhecia, sabendo de antemão o que iria tomar quer viesse sozinho ou acompanhado. Ocasionalmente, Alberto pedia algo de diferente ao Sr. Silva, só para não lhe responder que sim à pergunta “Então, vai ser o mesmo hoje?”, mesmo que o que desejasse fosse o mesmo. As rotinas e hábitos certos incomodavam-no, isto apesar de ele próprio ser uma pessoa de práticas habituais. Enquanto estivera na cidade, e depois de começar a exercer, Alberto vivera sozinho num pequeno apartamento com vista para a Rua Calçada do Oriente. Da sua senhoria, uma senhora viúva que habitava no apartamento contíguo ao seu, apenas conhecia o nome e a sua condição matrimonial. As suas conversas nunca se alongaram muito além da cortesia e boa educação do “Boa tarde minha senhora, como tem passado?”, sendo esta pergunta muitas vezes usada de forma retórica. Ignorava o porquê mas notara que, como a sua, a casa da sua senhoria não era muitas vezes visitada por outros. Actualmente, Alberto deveria andar pelos quarenta e quatro anos, isto apesar de apenas ter festejado onze, ou mesmo menos, aniversários. Digo deveria porque, sem que nada o suspeitasse, há uns meses atrás, Alberto terá desaparecido de modo incompreensível, sendo que mais nada tenha sido descoberto acerca do seu paradeiro. Na quietude dos sues aposentos, meses depois, terão sido encontrados um cinzeiro com um cigarro que fora deixado aceso a consumir-se, com um pequeno manuscrito rasgado por baixo, onde se lia
Os dias consomem-se-me como este cigarro que deixo apagar-se ao sabor do vento; amanhã, se ainda tiver cigarros no meu maço, fecharei a janela.
Na extremidade oposta da mesa poderia ver-se um maço de cigarros amarrotado, deixado esquecido no assoalhado polido da sala.
O telefone era ainda de modelo analógico, de rodinha furada ao sabor dos dígitos, de zero a nove. Um a um, esperando que a roda regressasse ao local inicial, marcou o número que se encontrava na parte de trás do cartão de contacto.
(tempo de espera)
“Bom dia, ou boa tarde, consoante a altura do dia em que esteja a telefonar. Bem, o melhor será mesmo saudar-vos por Olá. Olá! Acabou de ligar para Alberto Sequeira. Se hoje for sábado de manhã, é natural que esteja a ouvir esta mensagem, pois é dia de cumprir religiosamente o meu passeio matinal acompanhado do fiel Sputnik, com o jornal diário generalista debaixo do braço, pelo jardim municipal. A esta hora devo estar sentado no banco defronte do repuxo, a ler as notícias sobre o mundo e economia e a passar as gordas de desporto, ao mesmo tempo que a água do repuxo teima em cair ciclicamente. Mas eu estou a ligar à tarde, pensou você. A parte da tarde, passo-a na praça da cidade, depois de almoçar qualquer coisa no Café Central. Opto usualmente, a menos que esteja esgotada, pela caldeirada de peixe com vinho branco a acompanhar, que aconselho vivamente à prova. Asseguro que é incrível a conjugação dos sabores. Passar a tarde, mesmo um qualquer tempo que seja, na praça da cidade a observar as pessoas que passam é uma experiência inovadora, por mais vezes que se repita. De todas as vezes consigo ver algo novo nas pessoas que passam, deliciando-me com os fragmentos das conversas que ouço, como a daquela senhora que não parava de dizer ao seu companheiro que ele “apenas estava a apanhar os frutos que colheu” – só para nós aqui, acho que ela queria dizer que ele apenas estava a colher os frutos que semeou; as expressões idiomáticas estão assimiladas de tal forma que às vezes nos enganamos quando as proferimos, ou então não sabemos o que significam ao certo, mas achamos que ficava bem utilizá-las naquela altura. De outras vezes aposto comigo próprio em como acerto o lado pelo qual as pessoas contornam a estátua daquele escritor famoso. Constatei que as pessoas que compram revistas no quiosque raramente a contornam pela esquerda. Duvido que haja alguma relação entre isso, mas é um facto incontornável. Um exercício mais divertido é ver que pessoas tropeçam naquele degrau maior da escadaria que vai dar à Sé. Às pessoas da cidade raramente acontece, a menos que passem distraídas, mas quase todos os turistas acabam por o fazer, porque por certo não vem referenciado no guia turístico da cidade. Talvez devesse vir, já que a Sé vem, e como destino imperdível (apesar de nunca ter percebido muito bem o porquê). Mudando de assunto, se ligou para este número, o mais provável é estar necessitado de um advogado, função que desempenho desde há alguns anos. Pode também dar-se o caso de querer conhecer a mensagem do atendedor de chamadas da pessoa. Asseguro-lhe que há algumas muito engraçadas, tendo eu uma vez telefonado cerca de sete vezes até conseguir ouvir a de um número que escolhi ao acaso na lista telefónica – se me lembro bem, era dos apelidos Reis, e tinha, disto estou certo, uma mensagem normal que de certo modo me desapontou. Normalmente, gosto de defender juridicamente aquelas causas em que acredito, e sempre recusei casos cujas causas considero desprezíveis. Não é a posição mais profissional, mas é a que me deixa mais sereno. Li nas instruções do telefone que poderia gravar uma mensagem de atendimento até três minutos. Primeiro pensei para quê tanto tempo numa mensagem meramente informativa e orientadora, mas depois achei que conseguiria preencher a totalidade dos minutos, e que seria um exercício mais estimulante que as palavras cruzadas da última página do jornal. Para ser sincero, nunca cheguei a acabar umas por completo, passo o pleonasmo. Deixei a porta de entrada aberta de propósito para o Sputnik poder entrar, mas ele ainda não regressou. A janela, reparei agora, esqueci-me dela aberta, pois não tenho nenhum pássaro de estimação – na verdade nunca achei piada a pássaros engaiolados – estilo pombo-correio, e está a deixar entrar aquele frio de Outono que me incomoda. Vou só fechá-la, e… a água da chaleira começou a ferver, e lá se vai o café que tinha pensado preparar para tomar enquanto via as notícias na televisão. O melhor mesmo será deixar a sua mensagem depois do sinal sonoro, ou então ligar noutra altura, se ainda precisar dos meus serviços. Um bem-haja, Alberto."
Na aula de Biologia da Reprodução, enquanto se falava em AhR (Aryl hydrocarbon Receptors), vulgo, receptores celulares para hidrocarbonos aromáticos halogenados responsáveis pela ligação deste tipo de compostos, assim como pela ligação de dioxinas, formando complexos que migram para o núcleo, controlando aí uma série de processos de biotransformação responsáveis pela excreção destes compostos, bem como uma série de alterações a nível de expressão genética - afectando o crescimento, diferenciação e funções celulares - quando ligados a dioxinas, eis que a professora diz algo do género «Se Deus nosso Senhor nos dotou com estes receptores, (algo que agora não me lembro mas que é despiciendo)».
Esta frase fez-me olhar para a professora com ar admirado (creio)...
Por vezes na oralidade, e principalmente porque não temos tanto tempo para pensar e escolher as palavras, utilizamos automaticamente expressões já interiorizadas e assimiladas, acreditemos ou não no que elas signifiquem. Não quero, porém, por em causa qualquer tipo de crença por parte da professora. Fiquei espantado, só isso.
Devido à sobrelotação do autocarro ele não tivera oportunidade de se sentar e vinha em pé, ao lado de uma rapariga de quem soube mais tarde na viagem, o nome. Não fora devido a um acto dependente dele que a sua vontade em saber o nome da rapariga dos cabelos ao caracóis foi satisfeita; antes, devera-se a uma casualidade, como quando se sai de casa e, sem que nada o indicie, começa a chover. A palavra, na forma de ondas sonoras, chegou-lhe cristalina ao ouvido interno, onde foi transformada em impulsos que, uma vez no cérebro, o fizeram diferenciar o nome Chiara. Chiara, era este o seu primeiro mostro social. O símbolo que a fazia rodar o pescoço daquele jeito quase provocador quando se lhe era requerida a atenção, e a que era associada aquela imagem-retrato a quem o crossing-over durante as meioses tinha permitido, hereditariamente, aqueles olhos azuis cor de sonho acompanhados de um sorriso em sol sustenido. Involuntariamente, não involuntariamente, instintivamente, como se algo lhe tivesse dito para o fazer, a menina do sorriso em allegro maestoso, rodou o colo até parar, no cruzamento onde os seus olhos ficaram em posição oposta aos dele. Os olhos dele há muito que se encontravam direccionados nesta posição. Involuntariamente, surgiu um acelerado aumento de fluxo de sangue para as várias faces da cara, alastrando-se também às dele. O ar contido nos pulmões é expulso na forma de “olá” e o tímido massajar das cordas vocais faz a voz tremer, ao que os olhos respondem desviando-se, para em seguida se redireccionarem aos dela. A sua voz sabe-lhe a iguarias da índia que não sabia ainda existirem e a fragrância que emana dos seus caracóis indolentes exala ao vicejar das orquídeas em plena primavera, o odor que se destacaria no mais vasto dos jardins. As duas bocas despontam em forma de sorriso fingido de não-secreto e provocam acidentalmente o suave contacto entre as duas mãos, que já se conhecem. Às mãos, para se conhecerem basta o revezo do contacto, e o toque dura durante os três breves segundos que demoram a cair os vinte e sete primeiros grãos de areia da clepsidra. As suas mãos voltam a tocar-se e, desta feita, o contacto delonga-se durante três demorados segundos, provando que é possível retardar o toque para além do tempo em que deixa de ser toque para voltar a ser tão-somente duas mãos a se quase não tocarem, ou duas mãos a se quase tocarem, que é aqui o caso. Agora, contra suas vontades, o distanciar das mãos leva por arrasto ao afastar dos dois, aumentando a distância entre eles ao mesmo tempo que o que até então os separava se diminui, como um balão vermelho a quem soltam o ar por entre os dedos.